As minirrejeições

Eu sei, você sabe, todo mundo sabe, viver é extremamente tenso. Atribua à conta de um daqueles mecanismos involuntários de autopreservação a capacidade desenvolvida pelos cidadãos considerados normais, de relevar o potencial nocivo inerente às experiências sociais cotidianas. E olha que aqui não me refiro aos engarrafamentos, às filas de banco, nem à implicância do patrão, e sim às situações que vez ou outra nos esfregam na cara o quão difícil é lidar com a rejeição, seja em que nível for.

Enquanto reuno argumentos para sustentar minha teoria, torna-se mais e mais claro como alguns comportamentos extremos poderiam ser justificados como incapacidade em tolerar publicamente a pressão do julgamento alheio. Indo direto ao ponto, é o caso, por exemplo, da mulher que resolve mandar bala no marido adúltero, ou do sujeito, humilhado, que sequestra um ônibus para chamar a atenção da ex-namorada.Mas nem só através de acontecimentos trágicos como estes caminha a humanidade. Numa outra esfera, bem distante das páginas policiais ou do banco dos réus, encontra-se incubada a dimensão diminuta deste mesmo sentimento, aquela passível de ser experimentada por qualquer pessoa de bem.

São as minirrejeições (Jesus, como isso soa estranho depois da reforma ortográfica).Estou certo de que você já passou por algo parecido: mesa grande, lugar barulhento, uma pergunta ou um comentário dirigido a alguém lá na outra ponta. O próprio não ouve, mas os demais, sentados próximos a ele, sim. Suas palavras permanecem, então, ecoando no vazio, suspensas no ar, sem resposta. Aqueles segundos são insuportáveis, né? Meio sem graça você tenta mais uma vez: “mas hein, fulano, eu estava dizendo que…”. Vácuo, de novo.O cara ao seu lado se constrange, ri de nervoso, mais alguns segundos se passam. Agora você não hesita em gritar o nome de quem te ignora, e quase todo mundo no restaurante já percebeu seu empenho, que não se justifica, afinal o comentário nem faz mais sentido depois de tanto tempo.

Provavelmente, se ainda assim não for atendido, você levantará de seu lugar para cutucar o ombro, ou quem saber disparar um soco certeiro na nuca do seu amigo.Uma variação disto é aquele cumprimento lançado de longe, que em seguida vira uma tentativa canhestra de passar a mão no cabelo ou de alisar a barriga, visto que não foi correspondido. Ningúem, eu disse ninguém, nem mesmo o rei da autoconfiança, aguenta admitir um aceno para as paredes, ou sustentar a mão estendida sem aperto. Dói demais. Mas talvez a pior dentre todas as modalidades de minirrejeição social, pior até do que as evidenciadas pelos relacionamentos amorosos, seja a decorrente da pergunta “lembra de mim?”. Nunca, em nenhuma hipótese, tais palavras devem ser proferidas. Há outros meios menos contundentes de se obter tal confirmação, sem correr o risco de causar embaraço para ambas as partes.Aqui no blog tenho obtido provas concretas de como uma leve suspeita de minirrejeição já consegue transformar elogios em xingamentos.

Basta que os comentários demorem um pouco a ser publicados para determinados leitores se enfezarem. No entanto, tais palavras, carregadas de ódio e de rancor, não me aborrecem, muito menos me fazem sentir minirrejeitado. Tenho plena consciência de como é desagradável estar submetido a este código que supervaloriza a aceitação do outro, e sob o qual estamos expostos   desde a infância.Da próxima vez em que se sentir minirrejeitado, faça como eu. Pense na situação daquelas pessoas que declaram seus amores nos programas de auditórios, e que, portanto, tomam toco na frente de centenas de milhares de telespectadores. É um método politicamente incorreto, mas, sem sombra de dúvida, bastante eficiente.

Por Bruno Medina

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