{"id":677,"date":"2010-03-24T16:49:55","date_gmt":"2010-03-24T16:49:55","guid":{"rendered":"http:\/\/sinservregional.com.br\/site\/?p=677"},"modified":"2010-03-24T16:49:55","modified_gmt":"2010-03-24T16:49:55","slug":"big-brother-brasil-900-dias-de-frivolidade-no-zoologico-da-globo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sinservregional.com.br\/site\/?p=677","title":{"rendered":"Big Brother Brasil: 900 dias de frivolidade no zool\u00f3gico da Globo"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/diariodoocio.files.wordpress.com\/2009\/01\/bbb1.jpg\" border=\"0\" hspace=\"10\" width=\"100\" height=\"75\" align=\"left\" \/>Nos \u00faltimos dez anos, o canal de maior audi\u00eancia da TV aberta no Brasil exibiu durante 900 noites seguidas a atra\u00e7\u00e3o <em>Big Brother Brasil<\/em>. Em outras palavras, a TV Globo passou mais de dois anos transmitindo, de forma ininterrupta, o programa que segue o formato criado em 1994 pelos holandeses Joop van den Ende e John de Mol, nomes que des\u00e1guam na ora famosa marca Endemol. <\/p>\n<div align=\"justify\" \/> <!--more--> <\/div>\n<p align=\"justify\">\u00a0<span style=\"font-size: 10pt; font-family: 'Verdana','sans-serif'\"><font color=\"#000000\">No conjunto, s\u00e3o dois anos e meio falando de pr\u00eamio de dinheiro gra\u00fado. R$ 500 mil, R$ 1 milh\u00e3o, R$ 1,5 milh\u00e3o. E tamb\u00e9m de anjo, monstro, lideran\u00e7a, pared\u00e3o, elimina\u00e7\u00e3o. E tome Pedro Bial pontificando, filosofando, misturando superego, mito do her\u00f3i, arqu\u00e9tipo e inconsciente coletivo, Brecht e Paulo Coelho, Maiakovski e Paulo Leminski, Renato Russo e Bob Dylan, arrematando tudo com a manjada moral da hist\u00f3ria extra\u00edda possivelmente dos contos da lavra dos irm\u00e3os Grimm. <\/p>\n<p>O <em>BBB <\/em>\u00e9 mais atra\u00e7\u00e3o que programa. Programa tem algum tipo de encadeamento, de estrutura enquanto atra\u00e7\u00e3o: tem pouco de previsibilidade, a &#8220;coisa em si&#8221; \u00e9 o que capta os sentidos da audi\u00eancia. H\u00e1 a ilus\u00e3o da imprevisibilidade. Apenas ilus\u00e3o, porque o que vale mesmo \u00e9 a realidade fabricada ali na mesa de edi\u00e7\u00e3o; \u00e9 ali que se constroem os mocinhos e os bandidos, os &#8220;cabe\u00e7as&#8221; e os iletrados, o \u00e9ticos e os a\u00e9ticos. <\/p>\n<p>Contrariando a m\u00e1xima de que homem algum \u00e9 uma ilha, o <em>BBB <\/em>termina sendo a pr\u00f3pria ilha a ter como mar suas paredes e o tempo todo \u00e9 desperdi\u00e7ado com conversa, namoro, intriga, gin\u00e1stica, bebedeira. No entretempo, os super-her\u00f3is do Bial se digladiam para eliminar os outros e vencer. E \u00e9 o vale-tudo: fazem alian\u00e7as, traem, simulam, dissimulam, enfim, tentam se aproximar do Santo Graal, aquele objeto de desejo agora representado pelo cheque de R$ 1,5 milh\u00e3o. <\/p>\n<p>Quem est\u00e1 ali se depara com o dilema da modernidade: se tornar\u00e1 celebridade instant\u00e2nea ou retornar\u00e1 ao anonimato. Ser celebridade, mesmo que por poucos dias, parece conceder um sentido \u00e0 vida desses participantes; e renunciar aos holofotes deve, em sua estima, equivaler simbolicamente \u00e0 pr\u00f3pria morte.<\/p>\n<p><\/font><font color=\"#000000\"><strong>Em volta da piscina<br \/><\/strong><br \/>Concordo com o \u00f3timo poeta brasiliense Gustavo Dourado. E, de sua autoria, compartilho os bem-humorados versos:<br \/>\u00a0<\/font><\/span><font color=\"#000000\"><em><span style=\"font-size: 10pt; font-family: 'Verdana','sans-serif'\">&#8220;\u00c9 um joguete da m\u00eddia:\/ De lucro comercial&#8230;\/ Os bobos no telefone:\/ Escravid\u00e3o digital&#8230;\/ A mando do Grande Irm\u00e3o:\/ Que acumula o vil metal&#8230;\/\/\/ Loteria de milh\u00f5es:\/ Os bund\u00f5es em evid\u00eancia&#8230;\/ Decadente baixaria:\/ Em busca de audi\u00eancia&#8230;\/ Programinha indecente:\/ Que est\u00e1 na repet\u00eancia&#8230;&#8221;<\/span><\/em><\/font><span style=\"font-size: 10pt; font-family: 'Verdana','sans-serif'\"><font color=\"#000000\">\u00c9 aquele desfile de corpos sarados \u2014 na maioria dos casos \u2014 com mentes vazias. Gigantes materiais e pigmeus \u00e9ticos. Muita futilidade, caras e bocas, mau caratismo expl\u00edcito, atentados ao pudor e \u00e0 l\u00edngua p\u00e1tria, preconceitos raciais e sociais de todos os matizes. O voyeurismo estimulado pela atra\u00e7\u00e3o supera e muito o interesse e curiosidade com que visitantes param em um zoo para observar a jaguaritaca, o filhote de anta e o urso polar, a girafa ou o flamingo. <\/p>\n<p>O programa de maior audi\u00eancia da televis\u00e3o brasileira \u00e9 a vers\u00e3o moderna de um zool\u00f3gico, onde em vez de observar animais observamos do que s\u00e3o capazes semelhantes nossos trancafiados em uma jaula com apar\u00eancia de casa, com jeito de casa. Ningu\u00e9m joga pipoca nem banana, mas a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 concentrada: em determinada noite da semana se contabilizam formid\u00e1veis dezenas de milh\u00f5es de liga\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas jogadas na jaula em forma de casa com o nobil\u00edssimo intuito de sensibilizar os administradores do z\u00f4o para que expulsem da casa \u2014 em forma de jaula dom\u00e9stica \u2014 este ou aquele participante. <\/p>\n<p>Em pleno ver\u00e3o carioca, sempre no per\u00edodo de janeiro a mar\u00e7o, sabemos na edi\u00e7\u00e3o noturna os que ficaram papeando na piscina ou desmaiados em volta desta, sempre em trajes sum\u00e1rios, sumar\u00edssimos. E os instintos estar\u00e3o, quase sempre, \u00e0 flor da pele. E isso me faz lembrar os jacar\u00e9s do papo amarelo, aquela esp\u00e9cie de jacar\u00e9 que habitava rios, lagos e brejos pr\u00f3ximos ao mar, desde o Rio Grande do Norte at\u00e9 o Rio Grande do Sul e na bacia do Rio Paran\u00e1, chegando at\u00e9 o Pantanal. \u00c9 que ali j\u00e1 estiveram trancafiados gente de quase todos os estados brasileiros. Largados em volta da piscina colocando em dia seus papos amarelos. E p\u00f5e amarelos nisso.<\/p>\n<p><\/font><font color=\"#000000\"><strong>A verdadeira natureza<br \/><\/strong><br \/>Todos parecem desfrutar do mesmo DNA do Pedro Bial: belos, sarados e afinados com essa cultura de frivolidades de que a atra\u00e7\u00e3o \u00e9 seu fruto mais maduro e consumido. Quando Bial surge na tela com seus jarg\u00f5es pomposos \u2014 meus her\u00f3is, meus \u00eddolos, tripulantes de minha nave, habitantes da casa mais vigiada do Brasil, meus mais-mais \u2014, os participantes d\u00e3o uma \u00faltima retocada no visual, uma nova cruzada de pernas, e como integrantes de bem ensaiado coral capricham no sorriso e retribuem o desejo de boa noite. <\/p>\n<p>Bial n\u00e3o consegue disfar\u00e7ar seu encantamento com aqueles esp\u00e9cimes humanos, fala como se Or\u00e1culo fosse e tem a plena convic\u00e7\u00e3o que jamais \u2014 jamais! \u2014 ser\u00e1 contraditado ou contrariado por quaisquer deles \u2014 e n\u00e3o importa qu\u00e3o infamante seja seu gracejo ou qu\u00e3o est\u00fapidas as observa\u00e7\u00f5es a ser proferidas em tom ora solene ora galhofeiro. E todos sabem que agradar o Bial \u00e9 o mesmo que aparecer bem nas casas de milh\u00f5es de telespectadores.<\/p>\n<p>Mas nem tudo est\u00e1 perdido. O <em>Big Brother Brasil <\/em>est\u00e1 a merecer estudo sociol\u00f3gico. A casa-jaula assemelha-se tamb\u00e9m a uma gaiola de hamsters (aqueles pequenos roedores brincalh\u00f5es). S\u00e3o 80-90 dias de cativeiro, privados de intimidade, alvos de simpatia e da antipatia de uns e de outros, do ci\u00fame e da inveja de uns e de outros, com tanto tempo ocioso e pouco afeitos \u00e0 atividade de pensar, talvez acreditando piamente que pensar enlouquece. <\/p>\n<p>Como hamsters, t\u00eam acesso \u00e0 roda gigante: festas no s\u00e1bado, gincanas premiando o vencedor com carros 0 km, esfor\u00e7o f\u00edsico colossal para fixar na mente dos telespectadores a marca do detergente que pode limpar tudo menos os lugares vazios, muito vazios de ideais e de sentido para a vida.<\/p>\n<p>Do ponto de vista financeiro a atra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma mina de ouro. Muito merchandising, pouco investimento. Assim como \u00e9 f\u00e1cil de tratar o hamster e de o mesmo n\u00e3o necessitar de alimenta\u00e7\u00e3o dispendiosa, a manuten\u00e7\u00e3o da casa do <em>BBB <\/em>\u00e9 relativamente econ\u00f4mica. Eles mesmos s\u00e3o quem fazem a comida e esta precisa ser conquistada vencendo obst\u00e1culos. E agora o formato da Endemol inclui a exist\u00eancia da Casa Grande &#038; Senzala \u2014 ou, como chamam seus participantes, a casa de luxo e o puxadinho.<\/p>\n<p>Hamsters levam a vantagem de rapidamente conquistar a nossa simpatia com seu comportamento amistoso ao contr\u00e1rio dos her\u00f3is do Bial, que na maioria das vezes apenas revelam sua verdadeira natureza com o passar do tempo em cativeiro. <\/p>\n<p><\/font><font color=\"#000000\"><strong>A maior trag\u00e9dia<br \/><\/strong><br \/>Nesta d\u00e9cima edi\u00e7\u00e3o houve recorde de votos para elimina\u00e7\u00e3o de um participante: 92 milh\u00f5es. Pausa para alguns r\u00e1pidos c\u00e1lculos. Neste pared\u00e3o recorde, caso 100% dos votos tenha sido transmitido por liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica, podemos calcular que as liga\u00e7\u00f5es renderam R$ 27,6 milh\u00f5es \u2014 considerando o pre\u00e7o da liga\u00e7\u00e3o a R$ 0,30. <\/p>\n<p>Agora&#8230; sim, sempre tem um agora. Agora, vamos imaginar que a Rede Globo tenha feito um contrato &#8220;50% por 50%&#8221;, ou melhor, &#8220;meio a meio&#8221; com uma operadora de telefonia. Ent\u00e3o, nesse \u00fanico pared\u00e3o a emissora carioca teria embolsado nada desprez\u00edveis R$ 13,8 milh\u00f5es. Toda essa dinheirama em um \u00fanico pared\u00e3o.<\/p>\n<p>Acontece que em tr\u00eas meses a quantidade de pared\u00f5es varia de 14 a 16. Portanto, seguindo certa mentalidade de nossos meios de comunica\u00e7\u00e3o, ante tamanho volume de dinheiro, algum desses empres\u00e1rios pensaria duas vezes antes de riscar de sua grade conte\u00fados que favore\u00e7am e cultura e cidadania do povo brasileiro?<\/p>\n<p>Outra constata\u00e7\u00e3o \u00e9 que pensamentos ego\u00edstas e imagens preconceituosas dominam o programa ou, ao menos, a quase totalidade da edi\u00e7\u00e3o do programa. Os que se sentem acima da m\u00e9dia \u2014 que, ali\u00e1s, \u00e9 muito baixa \u2014 avocam para si o atributo de serem elas mesmas, de serem sinceras em suas opini\u00f5es, de n\u00e3o estarem jogando pra plat\u00e9ia e que &#8220;dinheiro n\u00e3o \u00e9 tudo na vida&#8221;. Para estes, os outros apenas v\u00eam confirmar o pensamento de Jean-Paul Sartre de ser, os outros, o pr\u00f3prio inferno. <\/p>\n<p>O <em>Big Brother Brasil <\/em>\u00e9 autoexplicativo. Mesmo quem diz que nunca assistiu consegue rapidamente formular opini\u00e3o sobre o programa. At\u00e9 porque \u00e9 de longe fonte prim\u00e1ria para o jornalismo de frivolidades \u2014 tamb\u00e9m conhecido como de entretenimento \u2014, cr\u00edtica de televis\u00e3o e, na verdade, reedita o velho colunismo social dos jornais impressos. S\u00f3 que bem mais ao gosto dos dias atravessados que vivemos, com direito a pergunta em rede nacional em hor\u00e1rio nobre t\u00e3o instrutiva e recatada quanto: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 ativo, passivo ou ambos?&#8221; E a resposta de supet\u00e3o: &#8220;Nessa idade, eu sou tudo&#8221;. <\/p>\n<p>\u00c0 sua maneira, os participantes se p\u00f5em a conversar sobre tudo e todos, sobre tudo e nada. \u00c9 uma pena que n\u00e3o consigam elaborar em 90 dias perguntas que fa\u00e7am a vida valer a pena. Penso em busca de respostas para quest\u00f5es essenciais: todo mundo \u00e9 corrupto ou depende das circunst\u00e2ncias? Voc\u00ea toparia tudo \u2014 mas tudo mesmo! \u2014 por dinheiro? Todo mundo mente, faz intriga, \u00e9 fofoqueiro, tra\u00edra ou X9? Existe algum ser humano que seja confi\u00e1vel quando h\u00e1 muito dinheiro em jogo? Por que tenho medo de lhe dizer o que eu sou? <\/p>\n<p>\u00c9 que ainda n\u00e3o entendemos que a pior trag\u00e9dia na vida de um homem \u00e9 aquilo que morre dentro dele enquanto ele ainda est\u00e1 vivo. N\u00e3o preciso escrever mais nada, n\u00e9?<\/p>\n<p><em>* Washington Ara\u00fajo \u00e9 mestre em Comunica\u00e7\u00e3o pela UnB e escritor<\/em><\/font><\/span><span style=\"font-size: 10pt; font-family: 'Verdana','sans-serif'\"><span><font color=\"#000000\">\u00a0\u00a0 <\/font><\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dez anos, o canal de maior audi\u00eancia da TV aberta no Brasil exibiu durante 900 noites seguidas a atra\u00e7\u00e3o Big Brother Brasil. 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