{"id":234,"date":"2009-07-14T19:35:17","date_gmt":"2009-07-14T19:35:17","guid":{"rendered":"http:\/\/sinservregional.com.br\/site\/?p=234"},"modified":"2009-07-14T19:35:17","modified_gmt":"2009-07-14T19:35:17","slug":"sarney-o-homem-incomum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sinservregional.com.br\/site\/?p=234","title":{"rendered":"Sarney, o homem incomum"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify\" class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 10pt; color: #2a393e; line-height: 115%; font-family: 'Verdana','sans-serif'\"><\/p>\n<div style=\"text-align: center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-233\" src=\"https:\/\/sinservregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/07\/dede.jpg\" border=\"0\" width=\"382\" height=\"271\" srcset=\"https:\/\/sinservregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/07\/dede.jpg 382w, https:\/\/sinservregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/07\/dede-300x213.jpg 300w, https:\/\/sinservregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/07\/dede-140x100.jpg 140w\" sizes=\"auto, (max-width: 382px) 100vw, 382px\" \/><\/div>\n<p><\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify\" class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 10pt; color: #2a393e; line-height: 115%; font-family: 'Verdana','sans-serif'\">H\u00e1 anos, nem me lembro mais quantos, os principais colunistas e rep\u00f3rteres de pol\u00edtica do Brasil, sobretudo os de Bras\u00edlia, reputam ao senador Jos\u00e9 Sarney uma aura divinal de grande articulador pol\u00edtico, uma esp\u00e9cie de g\u00eanio da ra\u00e7a dotado do dom da pondera\u00e7\u00e3o, da media\u00e7\u00e3o e do di\u00e1logo. Na selva de preserva\u00e7\u00e3o de fontes que \u00e9 o Congresso Nacional, estabeleceu-se entre os rep\u00f3rteres ali lotados que gente como Sarney \u2013 ou como Antonio Carlos Magalh\u00e3es, em tempos n\u00e3o t\u00e3o idos \u2013 n\u00e3o precisa ser olhada pelas ra\u00edzes, mas apenas pelas folhagens. Esse expediente \u00e9, no fim das contas, a raz\u00e3o desse descolamento absurdo do jornalismo brasiliense da realidade pol\u00edtica brasileira e, ato cont\u00ednuo, da desenvoltura criminosa com que deputados e senadores passeiam por certos setores da m\u00eddia. <\/p>\n<p>Olhassem Sarney como ele \u00e9, um coronel arcaico, chefe de um cl\u00e3 pol\u00edtico que h\u00e1 quatro d\u00e9cadas domina a ferro e fogo o Maranh\u00e3o, estado mais miser\u00e1vel da na\u00e7\u00e3o, os jornalistas brasileiros poderiam inaugurar um novo tipo de cobertura pol\u00edtica no Brasil. Come\u00e7ariam por ignorar as mentiras do senador (maranhense, mas eleito pelo Amap\u00e1), o que reduziria a exposi\u00e7\u00e3o de Sarney em mais de 90% no notici\u00e1rio nacional. No Maranh\u00e3o, a fam\u00edlia Sarney montou um feudo de cores pat\u00e9ticas por onde desfilam parentes e aliados assentados em cargos p\u00fablicos, cada qual com uma c\u00f3pia da chave do tesouro estadual, ao qual recorrem com const\u00e2ncia e avidez. O aparato de seguran\u00e7a \u00e9 utilizado para perseguir a popula\u00e7\u00e3o pobre e, n\u00e3o raras vezes, para trucidar opositores. A influ\u00eancia pol\u00edtica de Sarney foi forte o bastante para garantir a derrubada do governador Jackson Lago, no in\u00edcio do ano, para que a filha, Roseana, fosse reentronizada no cargo que, por direito, imaginam os Sarney, cabem a eles, os donat\u00e1rios do lugar. <\/p>\n<p>Jos\u00e9 Sarney \u00e9 uma vergonha para o Brasil desde sempre. Desde antes da Nova Rep\u00fablica, quando era um pol\u00edtico subordinado \u00e0 ditadura militar e um representante mais do que t\u00edpico da elite brasileira eleita pelos generais para arruinar o projeto de na\u00e7\u00e3o \u2013 rico e popular \u2013 que se anunciava nos anos 1960. Conservador, patrimonialista e cheio dessa falsa erudi\u00e7\u00e3o t\u00e3o t\u00edpica aos escritores de quinta, Jos\u00e9 Sarney foi o \u00faltimo pesadelo coletivo a n\u00f3s impingido pela ditadura, a mesma que ele, Sarney, vergonhosamente abandonou e renegou quando dela n\u00e3o podia mais se locupletar. Talvez essa peculiaridade, a de adesista profissional, seja o que de mais temer\u00e1rio e repulsivo o senador Jos\u00e9 Sarney carregue na trouxa pol\u00edtica que carrega Brasil afora, desde que um mau destino o colocou na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, em mar\u00e7o de 1985, ap\u00f3s a morte de Tancredo Neves. <\/p>\n<p>Ainda assim, ao longo desses tantos anos, rep\u00f3rteres e colunistas brasileiros insistiram na imagem brasiliense do Sarney cordial, erudito e mestre em articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. \u00c9 preciso percorrer o interior do Maranh\u00e3o, como j\u00e1 fiz em algumas oportunidades, para estabelecer a dimens\u00e3o exata dessa vis\u00e3o perversa e inaceit\u00e1vel do jornalismo pol\u00edtico nacional, alegremente autorizado por uma cobertura movida pelos interesses de uns e pelo puxa-saquismo de outros. Ao olhar para Sarney, os rep\u00f3rteres do Congresso Nacional deveriam visualizar as casas imundas de taipa e palha do sert\u00e3o maranhense, as p\u00fastulas dos olhos das crian\u00e7as subnutridas daquele estado, v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es marcadas pela verminose cr\u00f4nica e pela subnutri\u00e7\u00e3o idem. A\u00ed, saberiam o que perguntar ao senador, ao inv\u00e9s de elogiar-lhe e, desgra\u00e7adamente, conceder-lhe salvo conduto para, apesar de ser o desastre que sempre foi, voltar \u00e0 presid\u00eancia do Senado Federal. <\/p>\n<p>Tem raz\u00e3o o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva ao afirmar, embora pela l\u00f3gica do absurdo, que Jos\u00e9 Sarney n\u00e3o pode ser julgado como um homem comum. \u00c9 verdade. O homem comum, esse que acorda cedo para trabalhar, que parte da perspectiva di\u00e1ria da labuta incerta pelo alimento e pelo sucesso, esse homem, que perde horas no transporte coletivo e nas muitas filas da vida para, no fim do m\u00eas, decidir-se pelo descanso ou pelas contas, esse comum \u00e9, basicamente, honesto e solid\u00e1rio. Sarney \u00e9 o homem incomum. No futuro, Lula n\u00e3o ser\u00e1 julgado pela Hist\u00f3ria somente por essa declara\u00e7\u00e3o infeliz e injusta, mas por ter se<\/span><span style=\"font-size: 10pt; color: #2a393e; line-height: 115%; font-family: 'Arial','sans-serif'\"> <\/span><span style=\"font-size: 10pt; color: #2a393e; line-height: 115%; font-family: 'Verdana','sans-serif'\">submetido t\u00e3o confortavelmente \u00e0s chantagens pol\u00edticas de Jos\u00e9 Sarney, a ponto de ach\u00e1-lo intoc\u00e1vel e especial. Em nome da governabilidade, esse conceito em forma de gosma fisiol\u00f3gica e imoral da qual se alimenta a esc\u00f3ria da pol\u00edtica brasileira, Lula, como seus antecessores, achou a justificativa pr\u00e1tica para se aliar a gente como os Sarney, os Magalh\u00e3es e os Juc\u00e1. <\/p>\n<p>Pelo apoio de Jos\u00e9 Sarney, o presidente entregou \u00e0 pr\u00f3pria sorte as mais de seis milh\u00f5es de almas do Maranh\u00e3o, \u00e0s quais, desde que assumiu a Presid\u00eancia, em janeiro de 2003, s\u00f3 foi visitar esse ano, quando das enchentes de outono, mesmo assim, depois que Jackson Lago foi apeado do poder. Teria feito melhor e engrandecido a pr\u00f3pria biografia se tivesse descido em S\u00e3o Lu\u00eds para visitar o juiz Jorge Moreno. Ex-titular da comarca de Santa Quit\u00e9ria, no sert\u00e3o maranhense, Moreno ficou conhecido mundialmente por ter conseguido erradicar daquele munic\u00edpio e de regi\u00f5es pr\u00f3ximas o sub-registro civil cr\u00f4nico, uma das m\u00e1culas das seguidas administra\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia Sarney no estado. Ao conceder certid\u00e3o de nascimento e carteira de identidade para 100% daquela popula\u00e7\u00e3o, o juiz contaminou de cidadania uma massa de gente tratada, at\u00e9 ent\u00e3o, como gado sarneyzista. Por conta disso, Jorge Moreno foi homenageado pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas e, no Brasil, viu o nome de Santa Quit\u00e9ria virar nome de categoria do Pr\u00eamio Direitos Humanos, concedido anualmente pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica a, justamente, aqueles que lutam contra o sub-registro civil no Pa\u00eds. <\/p>\n<p>Em seguida, Jorge Moreno denunciou o uso eleitoral das verbas federais do Programa Luz Para Todos pelos aliados de Sarney, sob o comando, ent\u00e3o, do ministro das Minas e Energia Silas Rondeau \u2013 este um empregado da fam\u00edlia colocado como ministro-t\u00edtere dentro do governo Lula, mas de l\u00e1 defenestrado sob a acusa\u00e7\u00e3o, da Pol\u00edcia Federal, de comandar uma quadrilha especializada em fraudar licita\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Foi o bastante para o magistrado nunca mais poder respirar no Maranh\u00e3o. Em 2006, o Tribunal de Justi\u00e7a do Maranh\u00e3o, infestado de aliados e parentes dos Sarney, afastou Moreno das fun\u00e7\u00f5es de juiz de Santa Quit\u00e9ria, sob a acusa\u00e7\u00e3o de que ele, ao denunciar as falcatruas do cl\u00e3, estava desenvolvendo uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-partid\u00e1ria. Em abril passado, ele foi aposentado, compulsoriamente, aos 42 anos de idade. Uma dos algozes do juiz, a corregedora (?) do TER maranhense, \u00e9 a desembargadora Nelma Sarney, casada com Ronaldo Sarney, irm\u00e3o de Jos\u00e9 Sarney. <\/p>\n<p>H\u00e1 poucos dias, vi a cara do senador Jos\u00e9 Sarney na tribuna do Senado. Tr\u00eamulo, p\u00e1lido e murcho, tentava desmentir o indesment\u00edvel. Pego com a boca na botija, o tribuno brilhante, erudito e ponderado, a raposa velha indispens\u00e1vel aos planos de governabilidade do Brasil virou, de um dia para a noite, o mascate dos atos secretos do Senado. Ao terminar de falar, havia se reduzido a uma massa subnutrida de dignidade, fam\u00e9lica, an\u00eamica pela falta da prote\u00edna da verdade. Era um personagem bizarro enfiado, a socos de pil\u00e3o, em um jaquet\u00e3o coberto de goma. <\/p>\n<p>Na mesma hora, pensei no povo do Maranh\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify\" class=\"MsoNormal\">\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\"><span style=\"font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: 'Verdana','sans-serif'; letter-spacing: 0.85pt\"><font color=\"#000000\">Leandro Fortes \u00e9 jornalista, professor e escritor, autor dos livros <em><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\">Jornalismo Investigativo<\/span><\/em>, <em><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\">Cayman: o dossi\u00ea do medo<\/span><\/em> e <em><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\">Fragmentos da Grande Guerra<\/span><\/em>, entre outros. Tamb\u00e9m mant\u00e9m um blog chamado <em><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\"><a href=\"http:\/\/brasiliaeuvi.wordpress.com\/\"><span style=\"color: windowtext\"><u>Bras\u00edlia, eu vi<\/u><\/span><\/a>.<\/span><\/em><\/font><\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 anos, nem me lembro mais quantos, os principais colunistas e rep\u00f3rteres de pol\u00edtica do Brasil, sobretudo os de Bras\u00edlia, reputam ao senador Jos\u00e9 Sarney uma aura divinal de grande articulador pol\u00edtico, uma esp\u00e9cie de g\u00eanio da ra\u00e7a dotado do dom da pondera\u00e7\u00e3o, da media\u00e7\u00e3o e do di\u00e1logo. 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